sábado, 20 de novembro de 2010

TRAUMAS EM CANELAS DE CAVALOS - Parte I

Introdução
O cavalo de corrida é comumente submetido a reações ósseas durante o exercício. As doenças que afetam as canelas atingem cerca de 70 a 80% dos cavalos no seu primeiro ano de treinamento e, principalmente, quando treinados em velocidades de prova.
Dentre estas afecções as mais comuns são a dores de canelas, que podem ser as periostites, inflamações do tecido ósseo periférico denominado periósteo; as fraturas por estresse e as exostoses, vulgo sobreossos.

O que é o tecido ósseo?
O tecido ósseo, apesar de ser um dos mais duros do corpo, é um tecido vivo e dinâmico. O osso é formado por células ósseas que secretam fibras de colágeno nas quais, subsequentemente, o cálcio será depositado. A unidade funcional do osso é constituída de cilindros orientados longitudinalmente pelo interior dos quais passam vasos sangüíneos e um nervo. Esses cilindros são compostos por camadas concêntricas denominadas lamelas. Embora, de maneira geral, a forma e a estrutura da maioria dos ossos seja geneticamente pré-determinada, a massa, a estrutura tridimensional e as características micro estruturais podem mudar. As mudanças da mecânica ambiental podem ser transformadas em repostas biológicas pelo osso.

Periostites (“Dor de canelas”)
São micro lesões que levam a uma reação inflamatória do córtex dorsal ósseo do osso terceiro metacarpiano com deposição óssea irregular nos locais afetados. O processo normal leva a um espessamento ósseo, e quando este processo adaptativo termina, o osso principal da canela se torna resistente a danos futuros. Esta alteração ocorre apenas nos membros anteriores e pode ser diagnosticada em ambos os membros ou em apenas em um.
Causas
São causadas caracteristicamente por um aumento repentino na intensidade de trabalho e por excesso de exercícios de galope á velocidade de corrida durante o primeiro ano de treinamento. Durante este período, o terceiro metacarpiano é sujeito a novos e intensos padrões de carga, diferentes daqueles do início do treinamento, onde se exercitam os cavalos apenas a trote e leves galopes. Este aumento de treinamento sobrecarrega o córtex dorsal do osso principal da canela, resultando em inflamação.
De certa maneira, a força e a torção aplicadas sobre os ossos produzem dois estímulos: um no processo de ajustes da arquitetura (mecanismo de adaptação) e outro por meio do comportamento das células das superfícies dos ossos (modelamento e remodelamento), sendo que o processo de remodelamento pode ocorrer nas superfícies externa, interna (canal da medula óssea) e na própria matriz óssea. É de salientar que até os 24 meses de idade a face dorsal do osso terceiro carpiano é mais fina do que a palmar, favorecendo o aparecimento da dor de canelas.
Sinais clínicos
Os sinais são claudicação, diminuição da performance atlética e súbita relutância ao exercício, que melhora com descanso e piora com o trabalho. A claudicação é pior em terrenos duros e varia de leve a moderada entre os animais afetados. Quanto mais o cavalo trota mais ele mostra dor, e sente alívio quando é levado apenas ao passo.
Diagnóstico
Geralmente não são detectados nem calor nem inchaços. Porém, poderá ser visualizada em alguns casos uma leve distensão da cápsula articular do joelho. Existe também a presença de dor á palpação do membro afetado. Radiologicamente, as lesões não são observáveis durante o estágio inicial, sendo apenas diagnosticadas alterações de imagem típicas da dor de canelas, como extensa linha radioluscente orientada longitudinalmente ao osso principal da canela.
Fatores predisponentes
Os fatores que podem contribuir para o surgimento das dores de canela, além das causas já citadas,  são o sobrepeso, nutrição inadequada com carência de cálcio e fósforo, idade precoce para início dos treinamentos, e biodinâmica corporal desequilibrada, ou seja, não só os aprumos como também ferrageamento executado de forma errada.
Tratamento
A claudicação se resolve espontaneamente após 10 a 15 dias de descanso. O período de repouso é em média 60 dias, e após inicia-se o exercício a passo, atingindo a normalidade gradativamente de 3 a 4 semanas. A terapia visa o espessamento rápido do córtex ósseo, para que não ocorram recidivas. Tipicamente se utilizam antiinflamatórios e termo terapia nos primeiros dias, seguida de revulsivos como blisters para promover a reagudização e espessamento do córtex ósseo.
Prognóstico
Esta afecção atrasa em dois meses o treinamento da maioria dos potros em início de campanha. No entanto, é de fácil resolução e o prognóstico bom para a volta ás corridas. A recidiva ocorre apenas em casos mais graves, onde não houve um diagnóstico preciso, ou o animal ficou submetido ao trabalho contínuo com conseqüente fratura, ou não houve tempo necessário para a recuperação total. Alguns casos necessitam até 110 dias para se recuperarem totalmente. No entanto, os animais tratados nunca mais apresentam os sintomas da afecção.
Prevenção
Dentre alguns métodos preventivos temos a densitometria óssea, capaz de avaliar quando um animal jovem está apto a iniciar seu treinamento para corrida, o radiodiagnóstico, o uso da análise biomecânica e do ferrageamento correto, e o uso de procedimentos de treinamento adaptados ao não surgimento de lesões.

Exostose (“Sobreossos”)
Os sobreossos são periostites proliferativas que formam uma massa óssea ou calo ósseo nos pequenos metatarsos (segundo e quarto metacarpiano). São comumente vistos nos membros anteriores dos animais jovens, mas também podem ocorrer nos posteriores. Devido á posição anatômica (face interna da canela) o segundo osso metacarpiano é o mais afetado.
Causa
A deposição de tecido ósseo é uma resposta a uma entorse do ligamento interósseo, trauma ou fratura do osso em questão. No primeiro caso o sobreosso tem a designação de inativo, por ser apenas uma reação óssea normal acompanhada da formação de calo ósseo. Já as fraturas representam a designação ativa, e geralmente a sua presença é acompanhada de inchaço e dor local quando o membro é flexionado. O sobrepeso e os joelhos “off-set” são os dois principais fatores predisponentes.
Diagnóstico
Além da tradicional visualização e palpação, o RX é necessário para diferenciar entre inativo e ativo e qual linha terapêutica tomar. É de salientar que nem sempre os sobreossos são causa de claudicação, sendo a sua maioria reflexo de estresse durante o primeiro ano de treinamento ou apenas lesão de ordem estética.
Tratamento
A terapia é direcionada á redução da atividade física sem perder dias de treinamento para redução da dor. Se dor intensa, o repouso absoluto é indicado. O tratamento inclui o uso de drogas antiinflamatórias locais e sistêmicas. Terapia térmica com gelo também poderá ser utilizada nas fases agudas. Também nesta fase poderão ser realizadas aplicações subcutâneas locais de corticóides, mantendo após o membro enfaixado com ataduras e bandagens.
Para os casos que não apresentam sinais clínicos de inflamação ou são crônicos, é indicado o uso de revulsivos locais, provocando uma reação inflamatória local com reabsorção secundária do tecido ósseo e diminuição do sobreosso.
Prognóstico
Em geral o prognóstico é bom e não altera a performance atlética dos animais. No entanto, em alguns casos, o ligamento suspensório poderá ser atingido dificultando a cura do processo e aumento o tempo de retorno ao treinamento. Nos casos em que a conformação física do animal tende para estreitamento de base e mãos para fora, o prognóstico é reservado e a cura a longo prazo.

Fraturas dos metacarpos acessórios (segundo e quarto metacarpiano)
Fraturas agudas dos segundo e quarto metacarpianos são caracterizadas por calor no local, edema e dor, com variáveis graus de claudicação. As causas variam entre concussão intermitente a traumas diretos.
O diagnóstico é realizado através de palpação local do membro em flexão e RX, no qual será visualizada uma linha de fratura através do osso. A fratura poderá ser completa ou incompleta. Neste último caso, a fratura está associada a alterações proliferativas do periósteo ou espessamento do osso afetado.
O tratamento inclui primeiramente a redução do processo inflamatório, como citado para os sobreossos. Após, o procedimento indicado para as fraturas situadas na metade mais fina é a remoção cirúrgica. As encontradas na porção inicial, que é a parte mais larga dos ossos metacarpianos acessórios, são tratadas através de repouso e formação de calo ósseo para solidificação da fratura.
Cuidados devem ser tomados para não haver processo infeccioso local devido á lesão dos tecidos adjacentes (ligamentos, tendões, subcutâneo e cápsulas articulares), levando a um prognóstico reservado do caso.
No caso de tratamento ser conservativo e a formação do calo ósseo atingir o ligamento suspensório, a cirurgia também é indicada.
O prognóstico para o tratamento das fraturas depende do comprometimento do ligamento suspensório. No entanto, para a maioria o prognóstico para retorno ás atividades atléticas é bom.

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