domingo, 26 de setembro de 2010

O PARTO DA ÉGUA E SUAS POSSÍVEIS COMPLICAÇÕES – Parte II


A complicação mais freqüente durante o parto é a distocia, sendo definida como parto difícil onde condições de origem materna ou fetal impedem a passagem e saída do feto através do canal do parto. Entenda-se por canal do parto todas as estruturas maternas locais como cérvix, vagina e osso coxal (vulgo bacia).
A distocia pode ter outras conseqüências graves após a sua resolução e é este o tema que será agora abordado.

DISTOCIA
- A incidência da distocia nas éguas PSI é de 4% e geralmente é devido ao mau posicionamento fetal.
- O diagnóstico é realizado através dos sintomas como não expulsão do feto em 20 minutos após a ruptura da bolsa, e por palpação, onde é constatado o posicionamento errado do feto.
- Os principais desvios são:
(a) com apresentação dos membros anteriores: flexão carpal (membros anteriores dobrados), flexão da paleta (membro anterior esticado para trás), desvio lateral da cabeça e pescoço, desvio ventral da cabeça (cabeça dobrada para baixo), hiperflexão tarsal (membros posteriores esticados até á cabeça), posição de “cão-sentado”, apresentação ventral transversa (quando o corpo faz um “U” e apenas aparece o dorso no canal do parto).
(b) com apresentação dos membros posteriores: flexão dos curvilhões (membros posteriores dobrados), flexão da bacia (posição de “cão-sentado” reversa).
- O tratamento tem como objetivo o reposicionamento do feto e visa salvar sempre mãe e feto. Caso isto não for possível, a opção por mãe ou feto deverá ser tomada dependendo da situação encontrada.
- Durante o processo de manipulação obstétrica, poderão ser utilizados sedativos e anestésicos gerais. Também deverão estar presentes instrumentos obstétricos como correntes e apoiadores para tração do feto. Em último caso, a cesariana é o recurso final para a resolução da distocia.
- O autor é da opinião que a manipulação deverá ter duração máxima de 90 minutos. Depois disso a cesariana é indicada e tem bons resultados pós-cirúrgicos. A prática da fetotomia (amputação de partes corporais do feto) poderá causar seqüelas irreversíveis e incapacitar permanentemente a égua para a reprodução.


MANIPULAÇÃO DA DISTOCIA

- Procedimentos higiênicos deverão ser tomados, como limpeza da área e limpeza das mãos do operador e, se possível, com uso de luvas. Logo em seguida deverá ser verificada a viabilidade de feto e égua para se executarem todas as alternativas possíveis.
- O local a ser realizada a manipulação deverá ser amplo para que acidentes com operadores e animais não ocorram.
- As contrações uterinas deverão ser minimizadas para se facilitar o acesso ao feto e reposicionamento do mesmo. A égua deverá ser sedada, ou até mesmo passar por anestesia geral para que sejam atingidos estes objetivos.
- O uso de lubrificantes é controverso, já que apesar de auxiliarem a passagem do feto, poderão reduzir o atrito para futura tração a ser executada após o reposicionamento.
- O instrumental obstétrico deverá ser utilizado criteriosamente e deverá estar esterilizado. Quanto usado agressivamente, constatar primeiro o óbito do feto.
- Quanto á tração, deverão se tomar alguns cuidados para não ocorrerem lacerações na égua. A tração é mais facilmente aplicada simultaneamente á contração uterina. Por vezes a tração leve e contínua é mais efetiva que uma tração forte e intermitente.
- A manipulação é extremamente facilitada quando a égua estiver anestesiada e colocada em uma talha. Este instrumento permite com que se elevem os membros posteriores, permitindo com que o feto e vísceras da égua tenham um deslocamento cranial, dando maior espaço interno para manipulação.
- A cesariana, segundo o autor, é a segunda opção a ser tomada, sendo a última a fetotomia (quando não existem condições para se proceder á cirúrgia)

COMPLICAÇÕES ASSOCIADAS Á DISTOCIA

Trataremos aqui as conseqüências relacionadas apenas á égua, como seguem.
- Retenção de placenta: se a placenta não for expulsa em 2 horas é considerada retida. Este processo poderá levar a outras doenças sistêmicas. O tratamento desta patologia tem base na administração de ocitocina, tração contínua por gravidade ou enchimento uterino. O uso de antibióticos é aconselhado para evitar processo infeccioso, além de lavagens uterinas, para retirada total dos restos placentários, e anti-inflamatórios para amenizar dor e processo inflamatório.
- Metrite: infecção do útero. Deverão ser realizadas lavagens uterinas diariamente até remoção de todo o conteúdo. Uso de antibióticos intra uterinos e sistêmicos e anti-inflamatórios.




- Endotoxemia: é a presença de toxinas na circulação sanguínea devido a uma infecção pré-existente. Os procedimentos são os mesmos para retenção de placenta e metrite. Deverá se considerar o uso de soluções eletrolíticas, anti-inflamatórios e outros agentes anti-endotoxemicos.


- Laminite: é a inflamação das lâminas do cascos. Neste caso a terapia visa a prevenção através dos procedimentos acima, pois são a causa direta desta afecção. Quando já instaurado o processo, o tratamento visa reativar a circulação do casco e evitar a rotação da 3ª falange.


- Prolapso uterino: o útero é por vezes expulso após o parto. A égua deverá ser sedada, realizada uma epidural e o útero limpo e recolocado através da vagina para sua posição original.
- Hemorragia: a hemorragia poderá ser causada por rompimento de uma artéria (ilíaca ou uterina). O tratamento indicado é o cirúrgico e o prognóstico é severo. Tentativas “heróicas” são contra indicadas, pois poderão expor o animal a um sofrimento desnecessário.
- Laceração reto-vaginal: ocorre em partos não observados onde o feto rompe vagina e ânus tornando-os uma abertura conjunta. Dependendo do grau de lesão, as medidas poderão ser curativas ou cirúrgicas, ou ambas.
- Outras seqüelas com menos incidência são laceração da cérvix, necrose vaginal, retardo na involução uterina, hematomas vaginais, prolapso retal, constipação intestinal e cólica.