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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Corridas na areia: o “Dirt” japonês

 

LEMON POP (USA) - bi-campeão da areia no Japão pela JRA

A vitória de Forever Young na Breeders’ Cup Classic deste ano, nos Estados Unidos, reacendeu uma pergunta que há tempos ronda o turfe mundial: por que os cavalos japoneses são tão competitivos na areia? A resposta não é simples, mas envolve um conjunto de fatores que fazem do “dirt” japonês um fenômeno próprio dentro do cenário internacional.

No Japão, as corridas de cavalo são quase uma instituição. Aqui, o turfe é acompanhado com a mesma devoção que o beisebol ou o sumô. O público global costuma associar o país às corridas na grama, com astros como Deep Impact, Almond Eye e Equinox, mas existe outro universo, igualmente vibrante e sofisticado: o das corridas na areia. É um segmento gigantesco, que movimenta milhares de provas por ano e se divide entre dois sistemas: a poderosa JRA e a popular NAR.

O sistema duplo do turfe japonês

A estrutura das corridas no Japão é única.
De um lado, está a Japan Racing Association (JRA), que administra os grandes hipódromos, os principais G1 e os eventos de maior visibilidade.
De outro, a National Association of Racing (NAR), que comanda o circuito regional, formado por 15 hipódromos municipais, quase todos dedicados exclusivamente à areia.

Enquanto a JRA alterna entre grama e dirt, a NAR vive e respira o piso arenoso. É nesse ambiente que nascem os verdadeiros especialistas, os heróis locais que sustentam o turfe japonês.

Sistema

Corridas anuais (2024)

Corridas em areia (estimadas)

JRA

3.454

cerca de 1.800

NAR

14.800

cerca de 13.000



PRINCIPAIS PROVAS NA AREIA

Mês

Prova

Local (Sistema)

Distância

Categoria

Bolsa total

1º prêmio

Fevereiro

February Stakes

Tokyo (JRA)

1.600 m

G1

¥233 milhões

¥120 milhões

Abril

Kawasaki Kinen

Kawasaki (NAR)

2.100 m

JpnI

¥170 milhões

¥100 milhões

Abril

Haneda Hai

Ōi (NAR)

1.800 m

JpnI

¥78 milhões

¥50 milhões

Maio

Sakitama Hai

Urawa (NAR)

1.400 m

JpnI

¥136 milhões

¥80 milhões

Maio

Kashiwa Kinen

Funabashi (NAR)

1.600 m

G1

¥100 milhões

~¥60 milhões

Junho

Tokyo Derby

Ōi (NAR)

2.000 m

JpnI

¥170 milhões

¥100 milhões

Julho

Teio Sho

Ōi (NAR)

2.000 m

JpnI

¥136 milhões

¥80 milhões

Outubro

Japan Dirt Classic

Ōi (NAR)

2.000 m

JpnI

¥119 milhões

¥70 milhões

Novembro

JBC Classic

Funabashi (NAR)

2.000 m

JpnI

¥170 milhões

¥100 milhões

Novembro

JBC Sprint

Funabashi (NAR)

1.200 m

JpnI

¥136 milhões

¥80 milhões

Novembro

JBC Ladies’ Classic

Funabashi (NAR)

1.800 m

JpnI

¥102 milhões

¥60 milhões

Dezembro

Champions Cup

Chukyo (JRA)

1.800 m

G1

¥260 milhões

¥120 milhões

Dezembro

Zen-Nippon Nisai Yushun

Kawasaki (NAR)

1.600 m

JpnI

¥71 milhões

¥42 milhões

Dezembro

Tokyo Daishōten

Ōi (NAR)

2.000 m

G1 Internacional

¥170 milhões

¥100 milhões


Estrutura, tradição e impacto do dirt japonês

Desde 2024, o Japão consolidou sua própria Tríplice Coroa de Areia, um marco exclusivo do circuito NAR. As três corridas são realizadas no Hipódromo de Ōi, Tóquio, Embora a Tríplice Coroa só tenha estreado oficialmente em 2024, as três provas já são disputadas desde 1999 e, ao longo desse período, houve três cavalos que conquistaram as três vitórias a saber: Orion The Thanks, Thosin Blizzard e Mick Fire.

Haneda Hai – abril, 1.800 m
Tokyo Derby – junho, 2.000 m
Japan Dirt Classic – outubro, 2.000 m

Essas corridas formam a espinha dorsal do calendário juvenil em areia, coroando o melhor cavalo de areia da nova geração. 



O famoso Kentucky Derby também conta com a participação japonesa por meio de um caminho de qualificação próprio, chamado “Japan Road to the Kentucky Derby”. Essa série é composta por quatro corridas destinadas a potros de 2 e 3 anos, nas quais os cavalos acumulam pontos conforme suas colocações. Ao final, o animal com a maior pontuação total garante uma vaga direta no portão de largada do Kentucky Derby.

Série Japan Road to the Kentucky Derby

Cattleya Stakes – Prova não listada (Aberta no Japão) / Final de novembro, para potros de 2 anos (cerca de 1.600 m na areia)

Pontuação: 10-4-2-1

Zen Nippon Nisai Yushun – Prova listada (Jpn1 no Japão) / Meados de dezembro, para potros de 2 anos (1.600 m na areia)

Pontuação: 20-8-4-2

Hyacinth Stakes – Prova listada / Meados de fevereiro, para potros de 3 anos (cerca de 1.600 m na areia)

Pontuação: 30-12-6-3

Fukuryu Stakes – Prova não listada (Aberta no Japão) / Final de março, para potros de 3 anos (cerca de 1.800 m na areia)

Pontuação: 40-16-8-4


FOREVER YOUNG (USA) - campeão da Breeders Cup Classic em 2025

Outro ponto alto do calendário é a Japan Breeding Farms’ Cup (JBC), realizada todo dia 3 de novembro, feriado nacional japonês. Inspirada na Breeders’ Cup americana, a JBC é o grande festival da areia. Disputada em diferentes hipódromos a cada edição, ela concentra as principais provas do calendário da NAR: JBC Classic (2.000 m), JBC Sprint (1.000 m) e JBC Ladies’ Classic (1.800 m, exclusiva para fêmeas). Com bolsas que chegam a ¥170 milhões, o evento movimenta as maiores estrelas do país e reúne um público entusiasmado que acompanha ao vivo o espetáculo de velocidade e resistência.

A Tokyo Daishōten é, desde 2011, a única corrida internacional de Grupo 1 realizada sob o circuito da NAR (National Association of Racing). Reconhecida como a prova que consagra o "Rei da Areia" no Japão, ela também se consolidou como uma alternativa estratégica às corridas de G1 da JRA, como a Champions Cup e a February Stakes.Entre os vencedores notáveis estão Gold Allure, Ushba Tesoro e Forever Young, que ajudaram a elevar o prestígio da prova no cenário internacional.

A excelência técnica das pistas é um dos segredos do sucesso. A areia japonesa é mais profunda e levemente mais lenta, projetada para reduzir impacto e preservar a integridade física dos cavalos. Composta por areia fina misturada a argila, possui profundidade controlada entre 9 e 11 cm e drenagem calibrada para suportar o clima úmido. A manutenção é diária: o piso é revolvido, irrigado e nivelado a cada bloco de corridas, garantindo regularidade e segurança. Esse padrão técnico faz do Japão um dos países com menor índice de lesões em corridas sobre areia, um modelo que inspira até pistas de treinamento privadas.

O sucesso do dirt japonês começa a refletir na criação de cavalos. A procura por garanhões especializados em pista de areia cresce a cada temporada, abrindo espaço para novas linhagens focadas em potência, tração e recuperação muscular. Ainda assim, as influências de Sunday Silence e King Kamehameha continuam dominantes nos pedigrees, garantindo equilíbrio entre velocidade e resistência. Nos últimos anos, a integração entre JRA e NAR tem permitido maior intercâmbio de cavalos, jóqueis e treinadores, o que enriquece o pool genético nacional e amplia o valor competitivo dos animais adaptados ao dirt.

A JRA concede anualmente o título de Melhor Cavalo de Areia do Japão, honraria que simboliza a crescente importância do dirt no cenário doméstico. O prêmio leva em conta o desempenho nas provas nacionais, mas também reconhece conquistas internacionais, especialmente quando os cavalos japoneses se destacam em Dubai, Arábia Saudita ou nos Estados Unidos, exportando a excelência técnica do país para as grandes pistas mundiais.

Disciplinado, intenso e tecnicamente exemplar, o turfe de areia japonês é uma síntese do próprio Japão: precisão e paixão, tradição e inovação. Entre o profissionalismo meticuloso da JRA e a energia popular da NAR, o país construiu um ecossistema único, com mais de 15 mil corridas anuais, premiações milionárias e infraestrutura de ponta.

Em um lugar onde cada detalhe é levado a sério, até a areia é tratada como arte. E o Japão mostra, com brilho e disciplina, que a excelência também floresce fora da grama.

No Japão, até a areia brilha.


Com o jóquei Ryusei Sakai, logo após a vitória de Lemon Pop no Champions Stakes (G1). Sakai é o responsável por conduzir tanto Lemon Pop quanto Forever Young em suas campanhas vitoriosas.



Francisco Lança (*)

Médico-Veterinário e profissional do Agronegócio
Stud Manager - Godolphin in Japan

(*) Declaro que o conteúdo deste trabalho é de inteira responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião, políticas ou práticas do seu empregador. As análises, interpretações e conclusões aqui apresentadas foram elaboradas de forma independente, sem qualquer influência institucional. O autor também declara não possuir conflitos de interesse que possam ter afetado o desenvolvimento, os resultados ou as considerações expostas neste estudo.