Introdução
As funções modernas e as doenças
comuns predispõem os cavalos a condições de dor e inflamação. A inflamação é
comum a todos os tecidos lesionados do organismo e a resposta básica é a mesma,
independentemente da causa da lesão. Os sinais clínicos associados com a
inflamação têm sido descritos na literatura médica á milhares de anos. Celsius,
no século I dC, descreveu os sinais de inflamação como "vermelhidão e
inchaço com calor e dor". Virchow no século 19 citou "função
perturbada" para a definição. Embora possa ser difícil de avaliar
vermelhidão na pele coberta de pelos, inchaço com calor, dor e perda de função
são facilmente reconhecidos nas condições inflamatórias do cavalo. As demandas
de lazer, passeios competitivos e corridas resultam em muitas condições
inflamatórias do sistema musculoesquelético. A natureza do trabalho que os
cavalos executam os causa entorses e distensões, e, em alguns casos, a
insuficiência de ligamentos, tendões, ossos e articulações, o que pode levar à
incapacidade permanente ou temporária. Doenças comuns de cavalos, como
pneumonia e cólicas também envolvem a inflamação.
A inflamação é um mecanismo de
defesa natural contra a lesão tecidual e geralmente leva á cicatrização do
tecido. Por vezes o próprio processo inflamatório provoca mais prejuízos. Em
tais circunstâncias, é apropriado intervir com analgésicos e
anti-inflamatórios. Existem várias categorias de medicamentos que controlam a
dor e a inflamação nos cavalos. As drogas não esteroides anti-inflamatórias, os
corticosteroides e as drogas condroprotetoras agem predominantemente no local
da lesão para controlar a inflamação e, assim, controlar a dor. Anestésicos
locais atuam em receptores de dor para alterar a percepção da dor, sem
modificar a inflamação.
O processo inflamatório
A inflamação é uma resposta
celular primária para um insulto ou ferimento a partir de bactérias ou outros
organismos infecciosos, ou agentes químicos e físicos. O ácido araquidônico é
um componente fosfolipídio da membrana das células. Quando a membrana celular é
lesionada, a enzima fosfolipase A2 cliva o ácido araquidônico a partir da sua
posição na membrana da célula. Uma vez livre da membrana celular, o ácido araquidônico
é ativado pelas enzimas ciclo-oxigenase ou lipoxigenase. As ciclooxigenases são
encontradas em todas as células, exceto nos glóbulos vermelhos. Quando a
ciclooxigenase atua no ácido araquidônico, o resultado final é a formação da
prostaglandina, tromboxano e prostaciclina. Estas substâncias têm efeitos
potentes sobre o sistema vascular. Pelos seus efeitos opostos em circunstâncias
normais, elas fornecem um equilíbrio do sistema que mantém o tônus muscular e
vasos sanguíneos normais. Em condições inflamatórias, este equilíbrio é
perdido. Inicialmente, o efeito de prostaciclina predomina e causa um aumento
do fluxo sanguíneo para o tecido danificado causando dilatação dos vasos
sanguíneos. O aumento do fluxo de sangue aumenta a oferta de nutrientes,
oxigênio, anticorpos, leucócitos e outras substâncias de defesa para o local
lesionado. O edema e calor são resultantes do aumento do fluxo de sangue e de
fluidos sanguíneos que vazam para os tecidos adjacentes. Seguindo a atividade
do processo inflamatório, tromboxano e prostaglandina dominam, resultando em
vasoconstrição generalizada, dor, febre, agregação plaquetária, formação de trombos
(coágulos sanguíneos), e redução do fornecimento de oxigênio para os tecidos.
As prostaglandinas no cérebro são responsáveis por atingirem receptores no
hipotálamo causando a febre.
Como alternativa para a via da
ciclooxigenase, o ácido araquidônico pode ser ativado pela enzima lipoxigenase,
para produzir os leucotrienos. As lipoxigenases estão localizadas em células
brancas do sangue, plaquetas, e várias células nos pulmões. Os leucotrienos
causam a constrição das vias aéreas, a constrição dos vasos sanguíneos (com
saída de fluidos do sangue dos vasos sanguíneos), e a formação de coágulos
sanguíneos. Eles também atraem glóbulos brancos circulantes para a área da
inflamação.
Anti-inflamatórios não-esteróides (AINEs)
Os medicamentos
anti-inflamatórios não esteróides estão entre os medicamentos mais utilizados
na medicina veterinária. Alguns AINEs têm propriedades terapêuticas valiosas, e
alguns têm um grande potencial de toxicidade. Devido ao seu potencial para uso
indevido, um conhecimento profundo de sua farmacologia clínica é importante
para utilização efetiva.
Os AINEs habitualmente utilizados
em cavalos são:
aspirina
fenilbutazona
dipirona
flunixin meglumine
ácido meclofenâmico
cetoprofeno
Todos os AINEs são ácidos fortemente
ligados às proteínas no sangue. Portanto, eles são bem absorvidos a partir do
estômago, e em seguida, por causa da ligação às proteínas, a maior parte da
droga permanece no sangue. Baixos níveis de AINEs são encontrados em tecidos
normais e fluidos articulares. Em tecidos danificados e articulações, no
entanto, os AINEs podem aumentar para níveis terapêuticos devido ao aumento do
fluxo sanguíneo e ao extravazamento de fluidos de sangue dos vasos sanguíneos
danificados.
Mecanismo de ação
Os AINEs bloqueiam a enzima
ciclo-oxigenase, interrompendo a formação de tromboxano, prostaciclina e das
prostaglandinas a partir do ácido araquidônico. Isso resulta em ação
antipirética (reduz a febre), diminuição da dor, efeitos anti-inflamatórios e
inibição da agregação plaquetária. Pesquisas recentes também mostraram que
alguns dos AINEs atuam sobre os receptores da dor no sistema nervoso central e
bloqueiam a dor da mesma forma que a morfina. Os AINEs também alteram as
respostas do sistema imunológico e suprimem mediadores inflamatórios
provenientes da ciclo-oxigenase.
Interações medicamentosas
A ocorrência de potenciais
perigos de interações medicamentosas deve ser considerada com a utilização
terapêutica dos AINEs. Em geral, qualquer AINEs administrado em conjunto terá
efeito somado. Uma vez que todos os AINEs agem pelo mesmo mecanismo de inibição
da ciclo-oxigenase, uma dose mais alta de um único NSAID deverá produzir a
mesma resposta.
Devido a todos os AINE serem
altamente ligado às proteínas do sangue, o cuidado deve ser tomado quando
outros medicamentos também ligados às proteínas são administrados. A competição
por receptores de ligação da proteína podem resultar em aumentos dramáticos de
drogas livres disponíveis na circulação e podem causar toxicidade.
Por exemplo, alguns dos efeitos
do diurético furosemida (Lasix®), são dependentes de níveis normais de
prostaglandina. A administração concomitante de furosemida e AINEs pode reduzir
a eficácia de furosemida.
Efeitos adversos
Os efeitos adversos dos AINEs
estão relacionadas com o bloqueio da ciclo-oxigenase em tecidos em que as
prostaglandinas são benéficas. A redução de prostaglandinas protetoras resulta
em constrição dos vasos sanguíneos e danos nos tecidos do rim, redução do fluxo
sanguíneo e da produção de muco protetor no sistema gastrointestinal resultando
em úlceras, cólicas e diarréia. Os AINEs têm uma maior incidência de toxicidade
em potros, porque sua função renal não está totalmente desenvolvida. Quando é
necessário o uso de AINEs em potros, eles devem ser administrados nas doses
mais baixas possíveis. Os AINEs devem ser administrados com muita cautela em cavalos
desidratados. As concentrações sanguíneas são maiores do que no cavalo normal e
propensas a causar toxicidade.
O tratamento da toxicidade de AINEs é intensivo
e principalmente de suporte. A hipoproteinemia que resulta da perda de
proteínas do sangue através de úlceras no sistema gastrointestinal, pode ser
corrigida com infusões intravenosas de plasma. As perdas de fluidos e
eletrólitos que acompanham a diarreia são repostas com fluidos intravenosos
comercialmente disponíveis. Antibióticos de amplo espectro são indicados quando
há evidência de septicemia bacteriana (infecção do sangue). Dor de cólica deve
ser controlada com analgésicos opióides, e a terapia com AINEs adicional deve
ser evitada. Medicamentos antiulcerosos podem ser benéficos e aceleraram a recuperação.
A remoção cirúrgica das partes danificadas do intestino pode ser necessária em
alguns casos. A recuperação é geralmente lenta e, em casos graves, o
prognóstico é sempre reservadoTweet

