A vitória de Forever Young na Breeders’ Cup Classic deste ano, nos Estados Unidos, reacendeu uma pergunta que há tempos ronda o turfe mundial: por que os cavalos japoneses são tão competitivos na areia? A resposta não é simples, mas envolve um conjunto de fatores que fazem do “dirt” japonês um fenômeno próprio dentro do cenário internacional.
No Japão, as corridas de cavalo são quase uma instituição. Aqui, o turfe é acompanhado com a mesma devoção que o beisebol ou o sumô. O público global costuma associar o país às corridas na grama, com astros como Deep Impact, Almond Eye e Equinox, mas existe outro universo, igualmente vibrante e sofisticado: o das corridas na areia. É um segmento gigantesco, que movimenta milhares de provas por ano e se divide entre dois sistemas: a poderosa JRA e a popular NAR.
O sistema duplo do turfe japonês
A estrutura das corridas no Japão é única.
De um lado, está a Japan Racing Association (JRA), que administra os grandes hipódromos, os principais G1 e os eventos de maior visibilidade.
De outro, a National Association of Racing (NAR), que comanda o circuito regional, formado por 15 hipódromos municipais, quase todos dedicados exclusivamente à areia.
Enquanto a JRA alterna entre grama e dirt, a NAR vive e respira o piso arenoso. É nesse ambiente que nascem os verdadeiros especialistas, os heróis locais que sustentam o turfe japonês.
PRINCIPAIS PROVAS NA AREIA
Estrutura, tradição e impacto do dirt japonês
Desde 2024, o Japão consolidou sua própria Tríplice Coroa de Areia, um marco exclusivo do circuito NAR. As três corridas são realizadas no Hipódromo de Ōi, Tóquio, Embora a Tríplice Coroa só tenha estreado oficialmente em 2024, as três provas já são disputadas desde 1999 e, ao longo desse período, houve três cavalos que conquistaram as três vitórias a saber: Orion The Thanks, Thosin Blizzard e Mick Fire.
Haneda Hai – abril, 1.800 m
Tokyo Derby – junho, 2.000 m
Japan Dirt Classic – outubro, 2.000 m
Essas corridas formam a espinha dorsal do calendário juvenil em areia, coroando o melhor cavalo de areia da nova geração.
O famoso Kentucky Derby também conta com a participação japonesa por meio de um caminho de qualificação próprio, chamado “Japan Road to the Kentucky Derby”. Essa série é composta por quatro corridas destinadas a potros de 2 e 3 anos, nas quais os cavalos acumulam pontos conforme suas colocações. Ao final, o animal com a maior pontuação total garante uma vaga direta no portão de largada do Kentucky Derby.
Série Japan Road to the Kentucky Derby
Cattleya Stakes – Prova não listada (Aberta no Japão) / Final de novembro, para potros de 2 anos (cerca de 1.600 m na areia)
Pontuação: 10-4-2-1
Zen Nippon Nisai Yushun – Prova listada (Jpn1 no Japão) / Meados de dezembro, para potros de 2 anos (1.600 m na areia)
Pontuação: 20-8-4-2
Hyacinth Stakes – Prova listada / Meados de fevereiro, para potros de 3 anos (cerca de 1.600 m na areia)
Pontuação: 30-12-6-3
Fukuryu Stakes – Prova não listada (Aberta no Japão) / Final de março, para potros de 3 anos (cerca de 1.800 m na areia)
Pontuação: 40-16-8-4
Outro ponto alto do calendário é a Japan Breeding Farms’ Cup (JBC), realizada todo dia 3 de novembro, feriado nacional japonês. Inspirada na Breeders’ Cup americana, a JBC é o grande festival da areia. Disputada em diferentes hipódromos a cada edição, ela concentra as principais provas do calendário da NAR: JBC Classic (2.000 m), JBC Sprint (1.000 m) e JBC Ladies’ Classic (1.800 m, exclusiva para fêmeas). Com bolsas que chegam a ¥170 milhões, o evento movimenta as maiores estrelas do país e reúne um público entusiasmado que acompanha ao vivo o espetáculo de velocidade e resistência.
A Tokyo Daishōten é, desde 2011, a única corrida internacional de Grupo 1 realizada sob o circuito da NAR (National Association of Racing). Reconhecida como a prova que consagra o "Rei da Areia" no Japão, ela também se consolidou como uma alternativa estratégica às corridas de G1 da JRA, como a Champions Cup e a February Stakes.Entre os vencedores notáveis estão Gold Allure, Ushba Tesoro e Forever Young, que ajudaram a elevar o prestígio da prova no cenário internacional.
A excelência técnica das pistas é um dos segredos do sucesso. A areia japonesa é mais profunda e levemente mais lenta, projetada para reduzir impacto e preservar a integridade física dos cavalos. Composta por areia fina misturada a argila, possui profundidade controlada entre 9 e 11 cm e drenagem calibrada para suportar o clima úmido. A manutenção é diária: o piso é revolvido, irrigado e nivelado a cada bloco de corridas, garantindo regularidade e segurança. Esse padrão técnico faz do Japão um dos países com menor índice de lesões em corridas sobre areia, um modelo que inspira até pistas de treinamento privadas.
O sucesso do dirt japonês começa a refletir na criação de cavalos. A procura por garanhões especializados em pista de areia cresce a cada temporada, abrindo espaço para novas linhagens focadas em potência, tração e recuperação muscular. Ainda assim, as influências de Sunday Silence e King Kamehameha continuam dominantes nos pedigrees, garantindo equilíbrio entre velocidade e resistência. Nos últimos anos, a integração entre JRA e NAR tem permitido maior intercâmbio de cavalos, jóqueis e treinadores, o que enriquece o pool genético nacional e amplia o valor competitivo dos animais adaptados ao dirt.
A JRA concede anualmente o título de Melhor Cavalo de Areia do Japão, honraria que simboliza a crescente importância do dirt no cenário doméstico. O prêmio leva em conta o desempenho nas provas nacionais, mas também reconhece conquistas internacionais, especialmente quando os cavalos japoneses se destacam em Dubai, Arábia Saudita ou nos Estados Unidos, exportando a excelência técnica do país para as grandes pistas mundiais.
Disciplinado, intenso e tecnicamente exemplar, o turfe de areia japonês é uma síntese do próprio Japão: precisão e paixão, tradição e inovação. Entre o profissionalismo meticuloso da JRA e a energia popular da NAR, o país construiu um ecossistema único, com mais de 15 mil corridas anuais, premiações milionárias e infraestrutura de ponta.
Em um lugar onde cada detalhe é levado a sério, até a areia é tratada como arte. E o Japão mostra, com brilho e disciplina, que a excelência também floresce fora da grama.
No Japão, até a areia brilha.
Francisco Lança (*)
Médico-Veterinário e profissional do Agronegócio
Stud Manager - Godolphin in Japan
(*) Declaro que o conteúdo deste trabalho é de inteira responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião, políticas ou práticas do seu empregador. As análises, interpretações e conclusões aqui apresentadas foram elaboradas de forma independente, sem qualquer influência institucional. O autor também declara não possuir conflitos de interesse que possam ter afetado o desenvolvimento, os resultados ou as considerações expostas neste estudo.
